Uso prolongado de omeprazol pode afetar a absorção de nutrientes O que a ciência está mostrando?
Azia frequente, queimação no estômago, refluxo. Para muitos brasileiros, o alívio desses sintomas vem em uma pequena cápsula tomada, quase que automaticamente, no dia a dia. O problema é que o uso contínuo e sem acompanhamento de medicamentos como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol pode trazer consequências silenciosas para a saúde — especialmente no que diz respeito à absorção de nutrientes essenciais.
Pesquisas recentes, conduzidas por cientistas brasileiros, reforçam um alerta importante: embora os inibidores da bomba de prótons (IBPs) sejam eficazes no tratamento de distúrbios gástricos, seu uso prolongado pode comprometer o equilíbrio nutricional do organismo e aumentar o risco de condições como anemia e fragilidade óssea. Esse é um tema que merece atenção não apenas de médicos, mas também de nutricionistas e da população em geral.
O que são os inibidores da bomba de prótons (IBPs)?
Os IBPs formam uma classe de medicamentos, amplamente prescrita, para tratar problemas como gastrite, úlcera péptica e doença do refluxo gastroesofágico. Eles atuam bloqueando a enzima responsável pela etapa final da produção de ácido clorídrico no estômago, reduzindo a acidez gástrica e, consequentemente, o desconforto digestivo.
O ponto crítico é que o ambiente ácido do estômago é fundamental para a absorção adequada de diversos minerais e micronutrientes. Quando essa acidez é reduzida de forma contínua, o processo digestivo e absortivo pode ser prejudicado.
O que a pesquisa científica revelou sobre nutrientes e IBPs?
Um estudo experimental realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC) avaliou os efeitos do uso prolongado de IBPs na absorção de minerais essenciais. A investigação analisou animais submetidos ao uso contínuo do medicamento, por períodos equivalentes a diferentes durações de tratamento em humanos.
Os resultados chamam atenção para alterações importantes na distribuição de minerais no organismo, incluindo:
- redução dos níveis de ferro no sangue, o que pode favorecer o desenvolvimento de anemia;
- aumento do cálcio circulante, sugerindo um possível deslocamento do mineral dos ossos para a corrente sanguínea, com impacto negativo na saúde óssea;
- desequilíbrios em minerais como magnésio, zinco, cobre e potássio, fundamentais para funções metabólicas, imunológicas e neuromusculares;
- mudanças em células do sistema imune, indicando que os efeitos vão além da digestão.
Esses achados reforçam que o impacto dos IBPs não se limita ao estômago, mas pode afetar todo o organismo ao longo do tempo.
Por que o risco aumenta com o uso prolongado?
O omeprazol está disponível, há mais de três décadas, e, ao longo dos anos, passou a ser utilizado de forma cada vez mais frequente — muitas vezes, para sintomas leves e sem orientação profissional. O problema não está no medicamento em si, mas na banalização do uso por meses ou até anos, ultrapassando o período geralmente recomendado, que costuma ser curto.
Além disso, moléculas mais recentes da mesma classe, como pantoprazol e esomeprazol, apresentam ação mais potente e prolongada. Isso significa que seus efeitos sobre a acidez gástrica podem ser ainda mais duradouros, potencializando o risco de deficiências nutricionais quando usados sem critério.
Qual o papel da Nutrição nesse contexto?
Do ponto de vista nutricional, o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons exige atenção redobrada ao estado nutricional do paciente. A redução da acidez gástrica interfere, diretamente, na biodisponibilidade de minerais e micronutrientes essenciais, tornando fundamental o acompanhamento por um nutricionista ou outro profissional de saúde qualificado.
Em usuários crônicos de IBPs, pode ser necessário realizar avaliações periódicas de ferro, cálcio, magnésio, zinco e vitamina B12, nutrientes frequentemente afetados por esse tipo de medicação. A depender do quadro clínico, também pode ser indicada a suplementação individualizada, sempre baseada em exames laboratoriais e orientação profissional, evitando o uso indiscriminado de suplementos.
Além da suplementação, a alimentação tem papel estratégico na prevenção de deficiências. Uma dieta equilibrada, rica em alimentos fontes de minerais e com boa qualidade nutricional, pode ajudar a minimizar parte dos impactos metabólicos causados pela redução da acidez estomacal. Estratégias como fracionamento das refeições, inclusão de alimentos naturalmente ricos em ferro, cálcio e magnésio, além do consumo adequado de proteínas, também favorecem a absorção e o aproveitamento dos nutrientes pelo organismo.
Mais do que corrigir deficiências, a Nutrição atua na promoção da saúde digestiva, auxiliando no controle de sintomas como refluxo e azia, por meio de ajustes alimentares e comportamentais. Isso pode reduzir a dependência do uso contínuo de medicamentos, principalmente em casos leves.
Quer saber mais sobre o tema? Confira mais dicas clicando aqui.
Para este e outros conteúdos, siga meu Instagram @cristinatrovonutricionista.