Refrigerante zero faz mal para o intestino ou para o fígado?

Refrigerante zero faz mal para o intestino ou para o fígado?

Se refrigerante zero faz mal para o intestino ou para o fígado é uma dúvida cada vez mais comum entre pessoas que trocaram o tradicional pela versão sem açúcar. Afinal, considerando que a bebida não contém açúcar, ela seria uma opção mais saudável, ou os adoçantes presentes na fórmula podem prejudicar o organismo?

       A resposta não é simples quanto responder “faz mal” ou “não faz mal”. O refrigerante zero não é considerado uma bebida nutritiva, mas também não há evidências suficientes para afirmar que seu consumo, dentro dos limites considerados seguros para os adoçantes utilizados, cause, diretamente, danos ao intestino ou ao fígado.

       O que merece atenção é a frequência de consumo, a quantidade ingerida e, principalmente, o lugar que o refrigerante ocupa na alimentação como um todo. E é justamente nesse aspecto que começam as principais dúvidas sobre os efeitos dos adoçantes no intestino, e sobre a relação entre bebidas dietéticas e saúde do fígado.

Refrigerante zero faz mal para o intestino?

       Aprofundando na questão do refrigerante zero fazer mal ao intestino, podemos afirmar que, nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar se adoçantes interferem na microbiota intestinal, conjunto de microrganismos que vive no trato gastrointestinal e participa de processos relacionados à digestão, ao metabolismo e ao funcionamento do sistema imune.

       Alguns estudos experimentais encontraram alterações na microbiota após o consumo de determinados adoçantes. No entanto, quando olhamos, especificamente, para estudos realizados em seres humanos, os resultados ainda são inconsistentes.

       Uma revisão, que avaliou ensaios clínicos e estudos observacionais sobre adoçantes não nutritivos, encontrou alterações significativas na microbiota em apenas parte dos ensaios clínicos analisados. Os autores destacam que a resposta pode variar de acordo com a composição da microbiota de cada pessoa, além da dose e do tipo de adoçante consumido. Também apontam a necessidade de estudos mais profundos e de maior duração para se entenderem melhor esses efeitos.

       Portanto, não é correto afirmar que refrigerante zero “destrói” a microbiota ou faz mal ao intestino de todas as pessoas.

       Por outro lado, algumas pessoas podem perceber sintomas gastrointestinais após consumir determinadas bebidas. Nesses casos, é importante observar não apenas os adoçantes, mas também outros componentes da bebida, a quantidade consumida e a sensibilidade individual.

Os adoçantes podem alterar a microbiota?

       A possibilidade de os adoçantes alterarem a microbiota intestinal está sendo estudada, mas ainda não existe uma conclusão definitiva de que o consumo habitual de refrigerante zero provoque uma alteração clinicamente relevante em todas as pessoas.

       Grande parte da preocupação surgiu a partir de estudos experimentais que observaram mudanças na composição bacteriana e no metabolismo intestinal. Porém, resultados obtidos em animais, ou em condições experimentais específicas não podem ser, automaticamente, adotados para dizer que o mesmo efeito acontecerá em seres humanos.

       Por isso, a mensagem mais adequada, atualmente, é: há uma possível relação entre alguns adoçantes e alterações na microbiota, mas as evidências em humanos ainda não são suficientes para afirmar que o refrigerante zero prejudica o intestino de forma geral.

Refrigerante zero pode causar gordura no fígado?

       Saber se o refrigerante zero pode causar gordura no fígado é outro tema que costuma gerar confusão.

       Existe uma associação bem estabelecida entre o consumo frequente de bebidas açucaradas e maior risco de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, conhecida popularmente como gordura no fígado. Estudos observacionais e meta-análises encontraram associação entre maior consumo de bebidas açucaradas e maior ocorrência de esteatose hepática. No entanto, não podemos simplesmente transferir esse resultado para o refrigerante zero.

       As bebidas artificialmente adoçadas foram avaliadas em alguns estudos, mas as evidências são muito mais limitadas e não permitem concluir que o refrigerante zero cause gordura no fígado. Uma revisão e meta-análise publicada sobre o tema, por exemplo, encontrou dados insuficientes para estabelecer uma associação significativa entre refrigerantes artificialmente adoçados e doença hepática gordurosa.

       Além disso, é importante considerar o contexto alimentar. O desenvolvimento da gordura no fígado está relacionado a fatores como excesso de peso, resistência à insulina, padrão alimentar e nível de atividade física. A alimentação como um todo tem papel muito mais importante do que um único alimento ou bebida isoladamente.

Refrigerante zero é melhor do que refrigerante comum?

      Concluir se o refrigerante zero é melhor do que o refrigerante comum vai depender do que ele está substituindo. Caso uma pessoa, que consome refrigerante tradicional diariamente, troque parte desse consumo pela versão sem açúcar, essa substituição pode reduzir a ingestão de açúcar e calorias provenientes das bebidas.

       Uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos encontrou que a substituição de bebidas açucaradas por bebidas adoçadas com baixo ou nenhum teor calórico esteve associada a pequenas melhorias no peso corporal e em alguns fatores cardiometabólicos em determinados grupos.

       Isso não significa, entretanto, que refrigerante zero seja equivalente à água ou que deva ser incentivado como bebida principal.

       Em outras palavras: trocar um refrigerante açucarado por um refrigerante zero pode ser uma estratégia de redução de açúcar, mas isso não transforma o refrigerante zero em uma bebida essencialmente saudável.

Afinal, refrigerante zero faz mal?

       Podemos, então, concluir que até o momento, não há evidências suficientes para afirmar que o consumo de refrigerante zero, por si só, cause danos ao intestino ou ao fígado em pessoas saudáveis, quando seus adoçantes são consumidos dentro dos níveis considerados seguros.

       O problema está, principalmente, quando a bebida aparece em grandes quantidades e ocupa um espaço que poderia ser preenchido por opções mais interessantes nutricionalmente.

       Também é importante lembrar que existem diferentes adoçantes e diferentes formulações de refrigerantes. Não é possível colocar todas as bebidas “zero” na mesma categoria e assumir que todas terão exatamente os mesmos efeitos.

       Em 2026, por exemplo, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) reafirmou a segurança da sucralose dentro dos usos atualmente autorizados e manteve sua ingestão diária aceitável em 15 mg/kg de peso corporal por dia.

Então, pode-se tomar refrigerante zero?

       Poder tomar refrigerante zero pode, mas é importante colocar a bebida no seu devido lugar.  O refrigerante zero pode ser uma alternativa ocasional ou uma ferramenta para quem está tentando reduzir o consumo de açúcar, especialmente, quando a alternativa seria continuar consumindo grandes quantidades de refrigerante açucarado. Ao mesmo tempo, ele não oferece os benefícios nutricionais da água, do leite ou de outras bebidas que podem fazer parte de uma alimentação adequada.

       Mais importante do que perguntar se “refrigerante zero faz mal” é observar quanto você consome, com que frequência, o que ele está substituindo e como é a sua alimentação como um todo.

       A ciência ainda está investigando os efeitos dos adoçantes sobre a microbiota intestinal e outros aspectos metabólicos. Por isso, o melhor caminho não é fazer do refrigerante zero um vilão, mas também não é tratá-lo como uma bebida saudável apenas porque não contém açúcar.

       Com certeza, a melhor bebida para fazer parte da rotina continua sendo aquela que hidrata sem depender de açúcar ou adoçantes: a água.

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