O que significa "sabor" nos alimentos industrializados?
Você já reparou que muitos alimentos industrializados trazem na embalagem expressões como "sabor queijo", "sabor pizza", "sabor cookie", "sabor doce de leite" ou "sabor bacon"? À primeira vista, isso pode parecer apenas uma forma de descrever o produto, mas, na prática, essa pequena palavra pode dizer muito sobre a composição do alimento.
Pense por um instante: um pacote de feijão nunca precisa informar que é "sabor feijão". Um pote de doce de leite artesanal, também, não precisa dizer que é "sabor doce de leite". Isso acontece porque esses alimentos realmente contêm aquilo que representam.
Entender essa diferença é um passo importante para fazer escolhas mais conscientes no supermercado. E a boa notícia é que você não precisa ser nutricionista para isso: basta aprender a interpretar a lista de ingredientes.
O que significa "sabor" nos alimentos industrializados?
Quando um produto informa que é "sabor chocolate", "sabor morango" ou "sabor parmesão" não significa, obrigatoriamente, que esses ingredientes estejam presentes na receita da forma que imaginamos.
Na indústria de alimentos, o sabor pode ser reproduzido por uma combinação de ingredientes e aditivos alimentares capazes de imitar aroma, gosto, textura e aparência. Em outras palavras, o consumidor sente a experiência daquele alimento, mesmo que ele esteja presente em quantidades muito pequenas, ou sequer faça parte da formulação.
Isso acontece porque nossa percepção do sabor envolve muito mais do que o paladar. O aroma, a cor, a textura e até a temperatura influenciam a forma como percebemos um alimento. A indústria utiliza esse conhecimento para desenvolver produtos altamente atrativos.
Como a indústria reproduz sabores?
Para criar alimentos com características sensoriais marcantes, são utilizados diferentes aditivos alimentares, entre eles:
- aromatizantes naturais ou artificiais, responsáveis por reproduzir aromas específicos;
- corantes, que deixam o alimento visualmente semelhante ao original;
- realçadores de sabor, que intensificam a percepção gustativa;
- edulcorantes ou grandes quantidades de açúcar, quando o objetivo é aumentar a doçura;
- gorduras e diferentes tipos de sal, que contribuem para a textura e para a palatabilidade.
Cada ingrediente é cuidadosamente combinado para estimular os sentidos e tornar o produto mais agradável ao consumo.
O que significa um alimento ser altamente palatável?
Palatabilidade é o termo utilizado para descrever o quanto um alimento é agradável ao paladar.
Os alimentos ultra processados costumam ser desenvolvidos, justamente, para atingir um equilíbrio muito específico entre açúcar, gordura, sal, aromas e textura. Essa combinação aumenta o prazer ao comer e pode favorecer um consumo maior do que o necessário.
Isso não significa que exista algum ingrediente "viciante" isoladamente, mas sim que a formulação desses produtos foi pensada para oferecer uma experiência sensorial extremamente atrativa, facilitando o consumo frequente.
A lista de ingredientes conta uma história
Uma das maneiras mais simples de identificar um alimento ultraprocessado é observar a lista de ingredientes.
Como regra geral, quanto menor e mais familiar for essa lista, melhor.
Alguns sinais de alerta incluem:
- muitos ingredientes diferentes;
- nomes pouco conhecidos ou difíceis de reconhecer;
- presença de aromatizantes;
- corantes;
- emulsificantes;
- espessantes;
- estabilizantes;
- realçadores de sabor;
- adoçantes artificiais;
- diferentes tipos de açúcares adicionados.
Os ingredientes aparecem em ordem decrescente de quantidade. Ou seja, os primeiros da lista são aqueles presentes em maior proporção no produto.
Se açúcar, gordura vegetal, xaropes ou diversos aditivos aparecem logo no início, vale a pena avaliar se aquele alimento deve fazer parte da rotina com frequência.
Como fazer escolhas melhores no supermercado
Não é necessário decorar todos os nomes dos aditivos para fazer compras mais conscientes.
Algumas estratégias simples ajudam bastante:
- priorize alimentos in natura ou minimamente processados;
- compare a lista de ingredientes entre marcas diferentes;
- escolha produtos com menos ingredientes sempre que possível;
- desconfie de alimentos com muitos aromas, corantes e aditivos;
- prefira alimentos que você reconheceria facilmente em uma receita caseira.
Essas pequenas decisões, repetidas ao longo do tempo, fazem diferença na qualidade da alimentação.
O que dizem as pesquisas sobre os ultraprocessados?
Nas últimas décadas, diversos estudos têm investigado os impactos do consumo frequente de alimentos ultraprocessados na saúde.
As evidências científicas apontam que uma maior participação desses produtos na alimentação está associada a um risco aumentado de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, alguns tipos de câncer e mortalidade por todas as causas.
É importante destacar que associação não significa, necessariamente, que o ultraprocessado seja a causa direta desses problemas em todos os indivíduos. A saúde depende de diversos fatores como genética, atividade física, qualidade geral da alimentação, sono e estilo de vida.
No entanto, quando diferentes estudos realizados em populações distintas encontram resultados semelhantes, forma-se um conjunto consistente de evidências. Atualmente, esse conjunto apoia as recomendações de reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e priorizar alimentos in natura, ou minimamente processados como base da alimentação.
Essa orientação está presente tanto no Guia Alimentar para a População Brasileira quanto em diversas pesquisas publicadas internacionalmente.
O objetivo não é demonizar alimentos
Nenhum alimento isoladamente define a qualidade da alimentação de uma pessoa. O maior desafio está em reconhecer quando produtos altamente industrializados deixam de ser exceções e passam a ocupar espaço diário na alimentação.
Por isso, mais importante do que eliminar alimentos é aprender a identificar o que realmente estamos comprando. Quanto maior for a presença de frutas, verduras, legumes, grãos, feijões, carnes, ovos, leite e outros alimentos in natura, ou minimamente processados na rotina, maior tende a ser a qualidade da alimentação e os benefícios para a saúde.
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