Musculação protege o fígado? Estudo mostra que o treino de força pode reprogramar o metabolismo e reduzir os danos da obesidade.

Musculação protege o fígado?                                                                                                    Estudo mostra que o treino de força pode reprogramar o metabolismo e reduzir os danos da obesidade.

       Você, provavelmente, já ouviu falar que a musculação ajuda a ganhar massa muscular, emagrecer e melhorar a saúde dos ossos. Mas, e se ela também fosse capaz de proteger um dos órgãos mais importantes do metabolismo, o que você pensaria? Uma pesquisa recente, desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), revelou que os benefícios do treinamento de força vão muito além da estética: a musculação pode promover mudanças profundas no funcionamento do fígado, ajudando a combater a esteatose hepática (gordura no fígado) e melhorar a sensibilidade à insulina.

       O que isso significa na prática? Como um exercício realizado pelos músculos consegue beneficiar o fígado? E o que essa descoberta representa para quem convive com obesidade, pré-diabetes ou diabetes tipo 2? Você vai descobrir as respostas a essas questões neste artigo.

A gordura no fígado é um problema cada vez mais comum

       A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, anteriormente conhecida como esteatose hepática não alcoólica, é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura nas células do fígado. Atualmente, ela é considerada uma das doenças hepáticas mais frequentes no mundo e está fortemente relacionada à obesidade, à resistência à insulina, a diabetes tipo 2 e à síndrome metabólica.

       Embora muitas pessoas não apresentem sintomas nas fases iniciais, a doença pode evoluir para inflamação crônica, fibrose, cirrose e, até mesmo, aumentar o risco de câncer de fígado.

       Além disso, quando o fígado está comprometido, todo o metabolismo sofre consequências, principalmente o controle da glicemia e da produção de energia.

O que os pesquisadores descobriram?

       O estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp investigou como a musculação poderia proteger o fígado em um modelo experimental de obesidade. Os cientistas observaram que apenas oito semanas de treinamento de força foram suficientes para provocar alterações importantes no funcionamento molecular do fígado de camundongos obesos.

       O aspecto mais interessante da pesquisa foi que essas mudanças ocorreram através da epigenética.

O que é epigenética?

       A epigenética é uma área da ciência que estuda de que forma fatores externos como alimentação, atividade física, sono, estresse e ambiente, conseguem modificar o funcionamento dos genes sem alterar a sequência do DNA.

       Em outras palavras, nossos genes não funcionam como um destino imutável. O estilo de vida pode "ligar" ou "desligar" determinados genes, conforme as necessidades do organismo.

       Uma das principais formas de controle epigenético é chamada de metilação do DNA. Esse processo funciona como uma espécie de interruptor químico: pequenas moléculas chamadas grupos metil se ligam ao DNA e dificultam que determinados genes sejam ativados. É justamente esse mecanismo que foi observado no estudo.

O gene MTCH2: um importante regulador do metabolismo

       Os pesquisadores concentraram suas análises em um gene chamado MTCH2, que participa diretamente do funcionamento das mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia dentro das células.

       Quando há obesidade e excesso de gordura no fígado, ocorre um ambiente de intenso estresse celular:

  • aumenta a inflamação;
  • as mitocôndrias passam a funcionar de forma inadequada;
  • diminui a produção de energia;
  • cresce o risco de morte celular e fibrose.

       Nesse cenário, o funcionamento do gene MTCH2 torna-se desregulado, contribuindo para a progressão da doença.

       Após o treinamento de força, entretanto, os pesquisadores observaram que o ambiente do fígado mudou completamente.

A musculação ajudou o fígado a sair do "modo de emergência"

       Embora as células ainda produzissem o RNA mensageiro relacionado ao gene MTCH2, a quantidade da proteína produzida foi reduzida. Isso pode parecer contraditório, mas representa uma melhora importante.

       Segundo os pesquisadores, a musculação reduziu a inflamação e restaurou a produção de energia nas células hepáticas. Como consequência, o organismo deixou de interpretar aquele ambiente como uma situação de perigo constante.

       Em outras palavras, o fígado saiu do chamado "modo de emergência", interrompendo mecanismos que favoreciam a progressão da doença.

       Esse resultado mostra que o treinamento de força não atua apenas queimando calorias. Ele modifica o ambiente celular de forma profunda, favorecendo processos naturais de recuperação.

A musculação também melhorou a resistência à insulina

       Um dos papéis mais importantes do fígado é controlar a quantidade de glicose circulando no sangue. Após as refeições, a insulina sinaliza para que o fígado armazene glicose na forma de glicogênio. Já, durante o jejum, esse estoque é liberado para manter o organismo funcionando.

       Quando existe gordura no fígado, esse mecanismo deixa de funcionar corretamente. O órgão desenvolve resistência à insulina e continua liberando glicose mesmo quando ela já está elevada no sangue.

       No estudo, os animais obesos submetidos à musculação recuperaram parte dessa sensibilidade à insulina. Na prática, isso significa um melhor controle da glicemia e menor sobrecarga metabólica.

       Essa descoberta reforça algo que já vinha sendo observado em estudos clínicos: o treinamento de força é uma estratégia importante tanto para prevenção, quanto para o tratamento da resistência à insulina e do diabetes tipo 2.

O que esse estudo significa para os seres humanos?

É importante destacar que a pesquisa foi realizada em camundongos, o que significa que os resultados ainda precisam ser confirmados em estudos clínicos com seres humanos.

Entretanto, seus achados ajudam a explicar mecanismos que já eram observados na prática clínica.

Diversas pesquisas mostram que o treinamento de força está associado à melhora da composição corporal, redução da gordura visceral, aumento da sensibilidade à insulina, controle glicêmico e melhora da saúde cardiovascular.

Agora, começa-se a compreender, também, como esses benefícios acontecem dentro das células.

Musculação é muito mais do que estética

       Durante muito tempo, a musculação foi associada apenas ao ganho de massa muscular e à aparência física. Hoje, a ciência mostra que seus efeitos alcançam praticamente todos os sistemas do organismo.

       Ao reduzir a inflamação, melhorar o metabolismo energético e favorecer o funcionamento adequado do fígado, o treinamento de força torna-se um importante aliado na prevenção e no tratamento de doenças metabólicas.

       Naturalmente, os melhores resultados acontecem quando a musculação faz parte de um conjunto de hábitos saudáveis, incluindo alimentação equilibrada, sono de qualidade, controle do estresse e acompanhamento profissional.

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