Dos anos 80 aos dias atuais Alimentos industrializados mudaram e o risco à saúde pode ser maior
Se você abrir um armário de cozinha dos anos 1980 e comparar com o de uma casa dos dias atuais, provavelmente, perceberá uma diferença que vai muito além das embalagens. Mudaram os produtos disponíveis, os ingredientes utilizados, a forma de fabricação, o tamanho das porções e, principalmente, a facilidade com que esses alimentos passaram a fazer parte da rotina.
Nos anos 1980, alimentos industrializados já faziam parte da alimentação dos brasileiros. Biscoitos, refrigerantes, cereais, embutidos, produtos instantâneos e diversos outros itens já estavam presentes nas prateleiras dos supermercados. A diferença é que, ao longo das décadas, a indústria de alimentos se tornou cada vez mais sofisticada, ampliando variedade, praticidade e capacidade de desenvolver produtos altamente atrativos ao consumidor.
É nesse ponto que surge uma questão importante: o que mudou nos alimentos industrializados e por que os ultraprocessados despertam, hoje, tanta preocupação?
O alimento industrializado é um alimento ultraprocessado?
Antes de comparar décadas, é importante entender que “industrializado” não é sinônimo de “ultraprocessado”.
O processamento de alimentos existe, há séculos, e pode ter funções importantes como aumentar a durabilidade, facilitar o armazenamento e tornar alguns alimentos mais seguros para o consumo. O próprio Guia Alimentar para a População Brasileira diferencia os alimentos in natura, ou minimamente processados, ingredientes culinários processados, alimentos processados e ultraprocessados.
Alimentos processados, como alguns queijos, pães e conservas, podem fazer parte de uma alimentação adequada, quando consumidos em pequenas quantidades e associados a alimentos in natura ou minimamente processados. Já os ultraprocessados são formulações industriais que, em geral, envolvem diversos ingredientes e aditivos e são desenvolvidas para apresentar características como sabor, aroma, textura e praticidade muito específicas.
Por isso, simplesmente olhar para uma embalagem e classificá-la como “industrializada” não é suficiente para avaliar sua qualidade nutricional.
O que mudou dos anos 80 para cá?
A transformação mais importante não aconteceu apenas na composição de um ou outro produto, mas no próprio sistema alimentar.
Nas últimas décadas, aumentou consideravelmente a disponibilidade de alimentos prontos para consumo, ou que exigem pouco preparo. Biscoitos, salgadinhos, bebidas adoçadas, cereais matinais, refeições congeladas, macarrão instantâneo, barras, produtos de confeitaria e diversos outros produtos passaram a ocupar, cada vez mais, espaço nas prateleiras.
Ao mesmo tempo, a indústria desenvolveu técnicas capazes de modificar textura, sabor, aroma, aparência e estabilidade dos alimentos. O Guia Alimentar destaca justamente a utilização de diferentes aditivos e tecnologias industriais na fabricação dos ultraprocessados, além da presença frequente de ingredientes que, dificilmente, seriam utilizados em uma cozinha doméstica.
Isso também mudou a relação com a comida. Um alimento, que antes precisava ser preparado, passou a poder ser aberto e consumido imediatamente. Uma refeição, que exigia planejamento, passou a estar disponível em poucos minutos.
A praticidade, portanto, é uma das grandes marcas da alimentação moderna.
Mais praticidade, mais exposição
A praticidade não é um problema por si só. Verdadeiramente, ela atende a carências reais de uma sociedade, em que as pessoas têm menos tempo disponível para cozinhar.
A questão está na frequência e no espaço que esses produtos ocupam na alimentação.
Um dos principais pontos levantados pelo Guia Alimentar é que os ultraprocessados tendem a apresentar composição nutricional desbalanceada e podem favorecer seu próprio consumo excessivo, além de substituir alimentos in natura ou minimamente processados.
Esse cenário é diverso de simplesmente comer um biscoito ou tomar um refrigerante em determinada ocasião. O problema está em um padrão alimentar, no qual produtos ultraprocessados passam a ocupar uma parcela cada vez maior de refeições e lanches.
Por que os ultraprocessados, atualmente, preocupam mais?
A preocupação não surgiu apenas porque os produtos ficaram “mais industrializados”. Ela também está relacionada ao aumento das evidências científicas sobre a associação entre o consumo elevado desses alimentos e diferentes desfechos de saúde.
Uma grande revisão publicada no periódico The BMJ, em 2024, reuniu 45 análises agrupadas, envolvendo aproximadamente 9,9 milhões de participantes. Os pesquisadores encontraram associações entre maior exposição a alimentos ultraprocessados e diversos desfechos adversos, especialmente relacionados à saúde cardiometabólica, transtornos mentais comuns e mortalidade. Entre as associações consideradas mais consistentes estavam o maior risco de diabetes tipo 2 e a mortalidade relacionada a doenças cardiovasculares.
Isso não significa que um único alimento ultraprocessado seja responsável, isoladamente, pelo desenvolvimento de uma doença. A alimentação é apenas um dos componentes que influenciam a saúde, e estudos observacionais também apresentam limitações.
O que a evidência aponta é algo mais amplo: quanto maior a participação dos ultraprocessados na alimentação, maior tende a ser a associação com diversos desfechos negativos de saúde.
Os alimentos dos anos 80 eram melhores?
Se os alimentos dos anos 80 eram melhores do que os atuais, é uma comparação que precisa ser feita com cuidado.
Não é correto afirmar que todos os produtos consumidos naquela época eram mais saudáveis ou que tudo o que existe hoje é pior. Já havia refrigerantes, biscoitos, produtos açucarados, embutidos e outros alimentos com elevada densidade energética.
A grande transformação está na escala, diversidade, disponibilidade e presença desses produtos na rotina alimentar. Hoje, é possível encontrar uma quantidade muito maior de produtos, prontos para consumo, disponíveis praticamente em qualquer lugar, e para diferentes momentos do dia. Café da manhã, lanche, almoço, jantar e até pequenas pausas entre as refeições podem ser preenchidos por produtos industrializados.
Portanto, talvez a pergunta mais importante não seja “os alimentos de hoje são piores do que os dos anos 80?”, mas sim: quanto da nossa alimentação passou a depender de produtos industrializados e ultraprocessados?
A solução não é voltar aos anos 80
Quando falamos sobre alimentação, é fácil cair na nostalgia de que “antigamente era tudo melhor”. Mas a solução não está em voltar no tempo.
A indústria de alimentos também trouxe benefícios importantes como maior segurança microbiológica, conservação, disponibilidade e praticidade. O desafio está em equilibrar essas facilidades com uma alimentação baseada, predominantemente, em alimentos in natura ou minimamente processados.
Na prática, isso significa valorizar alimentos como frutas, verduras, legumes, feijão e outras leguminosas, ovos, carnes, leite, arroz, raízes e tubérculos, além das preparações culinárias feitas a partir desses alimentos.
Os produtos industrializados podem continuar existindo na alimentação. A questão é não permitir que eles ocupem o espaço que deveria ser dos alimentos e das preparações que formam a base de uma alimentação adequada.
Afinal, o risco aumentou?
A resposta mais adequada é: a preocupação com o consumo elevado de ultraprocessados aumentou, porque a exposição a esses produtos é maior e porque hoje temos um conjunto mais robusto de evidências, associando seu consumo frequente a diferentes problemas de saúde.
Isso não significa que todo alimento industrializado seja prejudicial, nem que seja necessário eliminar, completamente, qualquer produto embalado da alimentação.
Dos anos 80 para cá, a indústria mudou. Os produtos mudaram. A rotina das pessoas também mudou.
E talvez a mudança mais importante esteja, justamente, naquilo que nem sempre percebemos: quando a comida pronta deixa de ser uma praticidade ocasional e passa a ser a base da alimentação, o impacto deixa de estar em um produto isolado e passa a estar no padrão alimentar como um todo.
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