Deficiência de iodo na gestação: risco nutricional silencioso para mãe e bebê
Durante a gestação, a nutrição assume um papel ainda mais essencial, pois é por meio dela que o organismo materno sustenta o crescimento do bebê, promove a formação de órgãos vitais e garante a manutenção da saúde da mulher. Entre os diversos micronutrientes fundamentais, o iodo se destaca, infelizmente, como um dos mais negligenciados.
Presente em pequenas quantidades no organismo, o iodo é indispensável para a produção dos hormônios da tireoide, que regulam o metabolismo e participam ativamente da formação do cérebro e do sistema nervoso central do feto. Quando há deficiência ou excesso desse nutriente, o impacto pode ser significativo, tanto para a saúde da gestante quanto para o desenvolvimento do bebê.
O que a ciência tem mostrado sobre o consumo de iodo na gestação
Uma pesquisa, realizada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, analisou a ingestão de iodo em 266 gestantes, atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e revelou dados preocupantes. Apenas um terço das gestantes apresentavam níveis adequados de iodo. Entre as demais, 38% estavam com ingestão abaixo do ideal, enquanto 28% ultrapassavam a recomendação.
A concentração urinária de iodo, utilizada como marcador da ingestão do mineral, foi o método adotado pelo estudo. Esses dados apontam para uma falta de equilíbrio nutricional, que pode estar relacionada a hábitos alimentares inadequados, ausência de orientação nutricional, durante o pré-natal, e práticas incorretas no uso e armazenamento do sal iodado.
Qual a função nutricional do iodo?
Do ponto de vista nutricional, o iodo:
- participa da síntese dos hormônios tireoidianos (T3 e T4);
- contribui para o desenvolvimento neuropsicomotor do bebê;
- auxilia na regulação do metabolismo basal;
- está envolvido no crescimento e na maturação celular.
Durante a gestação, a necessidade de iodo aumenta devido à maior demanda da tireoide materna e à transferência do mineral para o feto. A recomendação diária para gestantes é de 220 microgramas por dia, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Impactos nutricionais quando o iodo falta ou sobra
Consequências da deficiência de iodo:
- redução da produção hormonal pela tireoide (hipotireoidismo);
- atraso no crescimento intrauterino;
- risco de aborto espontâneo;
- má formação neurológica (incluindo retardo mental grave, conhecido como cretinismo);
- maior chance de parto prematuro e baixo peso ao nascer.
Consequências do excesso de iodo:
- disfunções da tireoide como hipotireoidismo induzido por excesso ou hipertireoidismo;
- aumento do risco de bócio (aumento da glândula tireoide);
- interferência na captação de outros micronutrientes como o selênio.
Fontes alimentares de iodo
Embora o sal de cozinha iodado seja a principal fonte de iodo no Brasil, o ideal é não depender exclusivamente dele, especialmente considerando as perdas do mineral causadas por armazenamento inadequado, ou cocção em temperaturas elevadas.
Outras fontes alimentares importantes incluem:
- peixes (sardinha, atum, bacalhau);
- laticínios (leite, iogurtes, queijos);
- ovos (especialmente a gema);
Onde estão os erros nutricionais mais comuns?
- Troca do sal iodado por temperos industrializados: muitos desses produtos têm alto teor de sódio, mas não são fortificados com iodo. Essa substituição prejudica a ingestão do mineral.
- Armazenamento inadequado do sal: exposição à umidade, luz ou calor excessivo podem inativar o iodo presente no sal iodado.
- Restrição alimentar sem orientação: dietas restritivas, especialmente as que cortam proteínas animais e laticínios, sem reposição adequada, podem levar à deficiência de iodo.
- Ausência de acompanhamento nutricional: mesmo com pré-natal médico, muitas gestantes não recebem avaliação nutricional individualizada, o que dificulta o diagnóstico precoce de desequilíbrios como este.
Iodo é um detalhe pequeno que faz uma diferença enorme
Em meio à infinidade de nutrientes que precisam ser monitorados durante a gestação, o iodo ainda recebe menos atenção do que deveria. Como vimos, sua deficiência ou excesso podem trazer consequências graves e irreversíveis para o bebê e para a mãe. Cuidar do consumo adequado desse mineral vai além de controlar o sal: envolve informação, orientação nutricional e escolhas alimentares conscientes.
Investir em nutrição durante a gestação é investir em saúde desde os primeiros dias de vida. E o iodo, mesmo em pequenas quantidades, é parte essencial dessa base.
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