Alimentação do pai antes da concepção pode estar relacionada às características do bebê ao nascer, aponta estudo da USP

Alimentação do pai antes da concepção pode estar relacionada às características do bebê ao nascer, aponta estudo da USP

A alimentação durante o planejamento de uma gravidez costuma ser associada principalmente à saúde materna. No entanto, pesquisas recentes mostram que os hábitos do pai também merecem atenção. Um estudo realizado por pesquisadoras da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) encontrou uma associação entre o maior consumo paterno de alimentos ultraprocessados e medidas corporais dos bebês ao nascer. Os resultados reforçam a importância de ampliar os cuidados com a saúde reprodutiva para incluir também os homens, embora ainda não permitam afirmar que a alimentação paterna seja a causa das diferenças observadas.

Mas como aquilo que um homem come antes mesmo da gravidez pode estar relacionado ao desenvolvimento de um bebê? A resposta pode envolver a formação dos espermatozoides e mecanismos biológicos que participam das primeiras etapas do desenvolvimento embrionário.

O que o estudo da FMRP-USP descobriu?

Publicado na revista científica Nutrition Research, o estudo investigou a relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados pelos pais e as medidas corporais dos recém-nascidos. A pesquisa foi realizada com 43 grupos de pais, mães e bebês atendidos pela rede pública de saúde de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Os resultados indicaram que, quanto maior o consumo de alimentos ultraprocessados pelos pais, maior foi a associação com o peso ao nascer, o índice ponderal e algumas medidas de gordura corporal dos bebês, especialmente em regiões como a coxa e a área suprailíaca, popularmente conhecida como a região dos “pneuzinhos”.

O índice ponderal é uma medida que relaciona o peso e o comprimento do recém-nascido, ajudando a avaliar suas proporções corporais. Já as medidas de adiposidade permitem estimar o acúmulo de gordura em determinadas regiões do corpo.

Um dado que chamou a atenção das pesquisadoras foi a participação dos ultraprocessados na alimentação dos participantes. Em média, esses alimentos representaram aproximadamente 30% da energia consumida pelos homens avaliados, enquanto entre as mulheres o percentual foi de 26%.

Entre as principais fontes de ultraprocessados na alimentação paterna estavam embutidos, como salsicha e bacon, bebidas açucaradas e biscoitos.

Apesar dos resultados, é importante destacar que a pesquisa não encontrou aumento da adiposidade total dos recém-nascidos. As associações foram observadas em indicadores específicos, e não em todas as medidas corporais avaliadas.

Como a alimentação do pai pode estar relacionada ao desenvolvimento do bebê?

A possível relação entre a alimentação paterna e as características do bebê está ligada a uma área de pesquisa que vem ganhando espaço na ciência: a influência dos hábitos de vida dos pais sobre o desenvolvimento dos filhos.

Embora o material genético seja transmitido pelos espermatozoides, essas células também podem apresentar características influenciadas pelo ambiente em que se desenvolvem. A alimentação, o estado nutricional e outros fatores relacionados ao estilo de vida são investigados como possíveis participantes desse processo.

Uma das hipóteses envolve a epigenética, área que estuda mecanismos capazes de modificar a maneira como os genes são ativados ou regulados, sem alterar a sequência do DNA.

Em outras palavras, além dos genes herdados, fatores ambientais podem estar relacionados à forma como determinadas informações genéticas são utilizadas durante o desenvolvimento. No caso da alimentação paterna, alterações nas características dos espermatozoides poderiam, em tese, participar de processos importantes para o desenvolvimento embrionário.

Outra hipótese envolve o estresse oxidativo e os processos inflamatórios. Dietas com elevada participação de ultraprocessados podem estar associadas a alterações metabólicas que, por sua vez, são investigadas por seus possíveis efeitos sobre a qualidade dos espermatozoides.

Entretanto, esses mecanismos não foram avaliados diretamente no estudo da FMRP-USP. Portanto, são explicações biologicamente plausíveis que ainda precisam ser investigadas para esclarecer como a alimentação paterna poderia se relacionar às medidas corporais dos recém-nascidos.

Por que os cuidados com a alimentação devem começar antes da concepção?

A formação e a maturação dos espermatozoides ocorrem ao longo de semanas, e o processo completo é frequentemente estimado em cerca de três meses. Por isso, o período anterior à concepção é considerado relevante para os cuidados com a saúde reprodutiva masculina.

Isso significa que o planejamento de uma gravidez pode ser uma oportunidade para que ambos os futuros pais avaliem seus hábitos alimentares e de vida.

No caso dos homens, uma alimentação equilibrada contribui para o fornecimento de nutrientes necessários ao funcionamento do organismo e pode favorecer a saúde reprodutiva. Além disso, hábitos como praticar atividade física regularmente, dormir bem, evitar o tabagismo e moderar ou evitar o consumo de bebidas alcoólicas também fazem parte dos cuidados gerais com a saúde.

É importante, porém, não interpretar o período de três meses como uma garantia de que mudanças alimentares produzirão determinado resultado no bebê. Trata-se de uma referência relacionada ao ciclo de formação dos espermatozoides, e não de um prazo comprovado para prevenir alterações nas medidas corporais dos recém-nascidos.

O que são alimentos ultraprocessados e por que vale a pena reduzir o consumo?

Os alimentos ultraprocessados são formulações industriais produzidas, em geral, com ingredientes extraídos de alimentos ou substâncias obtidas industrialmente, além de aditivos utilizados para modificar características como sabor, textura, cor e durabilidade.

Entre os exemplos estão refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, macarrão instantâneo, embutidos e diversos produtos prontos para consumo.

Esses produtos não são todos iguais em sua composição, mas muitos apresentam combinações de açúcares, gorduras, sódio e aditivos, além de oferecerem menor quantidade de fibras e determinados nutrientes quando comparados a alimentos in natura ou minimamente processados.

No dia a dia, reduzir a participação desses produtos na alimentação pode envolver escolhas simples, como priorizar frutas, verduras, legumes, feijão, ovos, cereais e preparações caseiras. Também é possível substituir bebidas açucaradas por água e planejar refeições para diminuir a dependência de produtos prontos.

O objetivo não precisa ser buscar uma alimentação perfeita ou eliminar completamente todos os produtos industrializados. A prioridade é construir um padrão alimentar variado e equilibrado, que possa ser mantido ao longo do tempo.

E a alimentação da mãe? O estudo encontrou resultados diferentes?

A pesquisa também avaliou a alimentação materna e identificou associações diferentes daquelas observadas entre os homens. O maior consumo materno de ultraprocessados no início da gestação foi associado ao menor peso, comprimento e circunferência da cabeça dos bebês ao nascer.

Esses resultados não significam que os ultraprocessados sejam benéficos para o crescimento fetal quando consumidos pelos pais, nem que a alimentação materna tenha um efeito protetor ou prejudicial em todas as situações. As diferenças observadas podem estar relacionadas a mecanismos distintos e a outros fatores que influenciam o crescimento do bebê.

Durante a gestação, a alimentação materna participa diretamente do ambiente em que o feto se desenvolve, incluindo processos relacionados à formação e ao funcionamento da placenta. Já a possível contribuição paterna antes da concepção pode envolver, entre outros fatores, características dos espermatozoides.

Como o estudo envolveu apenas 43 famílias, os resultados precisam ser interpretados com cautela. São necessárias pesquisas maiores e com acompanhamento mais detalhado para compreender essas associações e investigar os mecanismos envolvidos.

O consumo de ultraprocessados pelo pai pode determinar o peso do bebê?

Não. O estudo identificou uma associação, mas não demonstrou uma relação de causa e efeito. Isso significa que os resultados não permitem afirmar que o consumo de ultraprocessados pelo pai tenha provocado o maior peso ou as diferenças nas medidas corporais dos recém-nascidos.

Além do tamanho reduzido da amostra, a alimentação paterna foi avaliada durante a gestação, e não diretamente no período anterior à concepção. Dessa forma, os dados não demonstram, por si só, que os hábitos alimentares dos homens nos três meses anteriores à gravidez tenham causado os resultados encontrados.

O peso e a composição corporal ao nascer são influenciados por diversos fatores, incluindo características genéticas, condições de saúde dos pais, alimentação materna, funcionamento da placenta e duração da gestação.

Embora o peso ao nascer seja um indicador importante da saúde neonatal, não é possível prever a saúde futura de uma criança com base em uma única medida. Da mesma forma, o estudo não permite concluir que os bebês avaliados terão maior risco de desenvolver doenças metabólicas na vida adulta.

Os achados são relevantes porque ampliam a investigação sobre o papel da saúde paterna no desenvolvimento infantil, mas precisam ser confirmados por estudos com amostras maiores e diferentes desenhos de pesquisa.

Planejamento da gravidez também é assunto para os pais

A alimentação paterna ainda recebe menos atenção do que a materna nas conversas sobre planejamento familiar. No entanto, os resultados da pesquisa da FMRP-USP reforçam a importância de considerar a saúde dos dois parceiros antes da concepção.

Adotar uma alimentação equilibrada, reduzir o consumo frequente de ultraprocessados e manter hábitos de vida saudáveis são medidas que beneficiam a saúde geral e podem contribuir para a saúde reprodutiva masculina.

Isso não significa responsabilizar o pai pelas características físicas do bebê ou atribuir a uma escolha alimentar isolada um resultado específico da gestação. A proposta é ampliar o cuidado pré-concepcional e reconhecer que a saúde reprodutiva envolve diferentes aspectos da vida de ambos os pais.

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