Açúcar em excesso pode piorar a asma? Entenda o que um estudo descobriu.
Quando pensamos nos efeitos do consumo excessivo de açúcar, é comum lembrarmos de cáries, ganho de peso, resistência à insulina e diabetes. Mas os impactos podem ir além do metabolismo. Um estudo publicado na revista Nutrients mostrou que uma dieta rica em açúcar pode agravar a inflamação pulmonar associada à asma, pelo menos em um modelo experimental com camundongos.
A pesquisa chamou atenção, principalmente, pela rapidez com que as alterações apareceram. Os animais receberam a alimentação habitual e tiveram acesso adicional ao leite condensado. Após apenas duas semanas, os pesquisadores já observaram alterações metabólicas e inflamatórias. Nos animais que apresentavam sensibilização alérgica, os efeitos sobre os pulmões foram ainda mais expressivos.
Açúcar causa asma?
Não, açúcar não causa asma. Essa é uma diferença importante.
O estudo não mostrou que o açúcar seja capaz de provocar asma em animais que não apresentavam a doença. O que os pesquisadores observaram foi que, quando já existia uma condição alérgica, o consumo elevado de açúcar intensificava a inflamação das vias aéreas.
Nos animais sensibilizados, houve aumento do muco e do recrutamento de células inflamatórias para os pulmões, além de alterações em moléculas envolvidas na resposta imunológica como IL-4, IL-33 e TNF-α.
Ou seja, o açúcar parece ter atuado como um amplificador de uma inflamação que já estava presente, e não como a causa inicial da asma.
O que a gordura abdominal tem a ver com isso?
Um dos achados mais interessantes do estudo foi a participação do tecido adiposo visceral, a gordura localizada, principalmente, na região abdominal. Os pesquisadores observaram que o consumo elevado de açúcar provocou inflamação nesse tecido, com aumento de células e substâncias pró-inflamatórias. A hipótese é que essa inflamação possa contribuir para uma resposta inflamatória sistêmica.
Em pessoas com uma condição alérgica preexistente, esse ambiente inflamatório poderia favorecer uma resposta mais intensa nos pulmões.
Isso ajuda a entender que o tecido adiposo não funciona apenas como um local de armazenamento de energia. Ele também participa ativamente da regulação metabólica e imunológica do organismo.
O que isso significa para quem tem asma?
A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas. Durante as crises, ocorre estreitamento dos brônquios, aumento da produção de muco e inflamação, o que pode provocar sintomas como falta de ar, chiado e tosse. Por isso, fatores que influenciam o estado inflamatório do organismo podem ser relevantes para o controle da doença.
O novo estudo reforça a importância de olhar para a alimentação como parte do cuidado com a saúde, especialmente, quando existe uma doença inflamatória crônica. Isso não significa, porém, que uma pessoa com asma precise eliminar, completamente, o açúcar, ou substituir o tratamento médico por mudanças na alimentação.
A questão está, principalmente, no consumo excessivo e frequente de açúcares adicionados, presente em alimentos e bebidas como refrigerantes, doces, sobremesas e diversos produtos ultraprocessados.
É preciso cortar o açúcar completamente?
Não é preciso cortar o açúcar completamente.
Também é importante não transformar os resultados desse estudo em uma regra de que “todo açúcar faz mal”. A pesquisa foi realizada em camundongos e avaliou uma dieta com alto consumo de açúcar. Portanto, ainda são necessários estudos em seres humanos, para entender se os mesmos mecanismos acontecem da mesma forma nas pessoas.
Na prática, uma estratégia mais adequada é priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura, ou minimamente processados como frutas, verduras, legumes, feijões, cereais integrais, castanhas e sementes, e reduzir a frequência de produtos ricos em açúcares adicionados.
E vale lembrar: frutas não devem ser colocadas no mesmo grupo dos produtos ricos em açúcar adicionado. Além dos açúcares, naturalmente presentes, elas fornecem fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos.
A alimentação também faz parte do cuidado
A principal contribuição do estudo não é transformar o açúcar em um “vilão”, mas mostrar que a alimentação pode influenciar processos metabólicos e inflamatórios que vão muito além do peso corporal.
Para quem tem asma, manter uma alimentação equilibrada pode fazer parte de um cuidado mais amplo, junto com tratamento medicamentoso, acompanhamento profissional e controle de fatores ambientais, que podem desencadear crises como poeira, mofo e poluição.
Ainda não sabemos exatamente qual é o impacto desse mecanismo em seres humanos, mas a pesquisa traz uma reflexão importante: cuidar da alimentação não significa apenas pensar em calorias ou peso. A qualidade da dieta também pode influenciar o funcionamento do sistema imunológico e o estado inflamatório do organismo.
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